Ciência

São Paulo–Lisboa em 35 min: viagem de foguete

São Paulo e Lisboa estão separadas por cerca de 7.900 quilômetros de oceano Atlântico. Hoje, esse trajeto é uma travessia noturna de cerca de 10 horas dentro de um tubo pressurizado, com jantar, filme, insônia e o inevitável jet lag esperando do outro lado. Agora imagine outra cena: você embarca numa plataforma flutuante ao largo do litoral paulista, é lançado quase à beira do espaço, olha pela janela e vê a curvatura azul da Terra — e, 35 minutos depois, está pousando na foz do Tejo, em Lisboa, ainda a tempo do almoço.[2]

Não é ficção científica de roteiro barato. É o conceito que a SpaceX chama de “Earth-to-Earth” (da Terra para a Terra): usar o mesmo foguete gigante projetado para levar humanos a Marte para atravessar continentes aqui mesmo, no nosso planeta, em minutos. Este guia explica, em detalhe, como isso funcionaria, quanto tempo levaria cada rota, o que a física impõe ao seu corpo e por que — apesar do entusiasmo — o bilhete São Paulo–Lisboa ainda não está à venda.

Como isso seria possível?

A ideia central é surpreendentemente simples de enunciar e brutalmente difícil de executar: em vez de voar dentro da atmosfera, onde o ar limita a velocidade e força o avião a contornar a curvatura do planeta, você atravessa por cima dela.

O veículo é a Starship, o maior foguete já construído, empilhado sobre um propulsor chamado Super Heavy. Numa viagem ponto a ponto, a sequência seria mais ou menos esta:[2]

  • Embarque no mar. Por causa do barulho ensurdecedor e das ondas de choque, o lançamento não acontece no meio da cidade, mas em plataformas flutuantes offshore, ancoradas a alguns quilômetros da costa. Você chegaria até elas por barco ou transporte rápido.
  • Lançamento e subida. O propulsor Super Heavy acende seus motores e empurra a Starship para uma trajetória suborbital — ou seja, ela sobe até a borda do espaço, mas não chega a completar uma órbita ao redor da Terra. É um grande “salto” balístico, como uma pedra atirada bem longe, só que a pedra é uma nave com passageiros.
  • Voo hipersônico no vácuo. No ponto mais alto, a nave viaja a velocidade hipersônica (muitas vezes a velocidade do som), praticamente sem resistência do ar, porque quase não há ar ali em cima. É esse trecho sem atrito que devora milhares de quilômetros em poucos minutos.
  • Microgravidade. Durante boa parte do trajeto, motores desligados, os passageiros experimentam alguns minutos de microgravidade — a mesma sensação de “flutuar” dos astronautas. Café na mesa? Melhor não.
  • Reentrada e pouso. Perto do destino, a nave mergulha de volta na atmosfera, freia com o próprio corpo e os motores, e pousa na vertical em outra plataforma marítima, perto da cidade de destino.

O truque, portanto, não é apenas velocidade — é rota. Um avião comercial cruza o Atlântico a cerca de 900 km/h, arrastando-se contra o ar a 11 mil metros de altitude. A Starship sobe acima da atmosfera, corta caminho pelo vácuo e desce do outro lado. A diferença de tempo não é de 20%: é de horas para minutos.[1]

Os tempos divulgados pela SpaceX

Quando a SpaceX apresentou o conceito, divulgou uma tabela de tempos estimados para rotas entre grandes cidades. Os números são impressionantes o bastante para parecer erro de digitação — mas é exatamente isso que a empresa promete. Adicionamos no topo a rota que interessa ao leitor brasileiro:[2][3]

RotaTempo por foguete (Starship)
São Paulo → Lisboa~35 minutos
Nova York → Xangai39 minutos
Londres → Nova York29 minutos
Los Angeles → Tóquio37 minutos
Sydney → Londres51 minutos
Nova York → Paris30 minutos

O resumo da SpaceX é ainda mais ousado: a maioria das viagens levaria menos de 30 minutos, e praticamente qualquer lugar do planeta seria alcançável em menos de 1 hora.[2]

O contraste com o voo de hoje

Para dimensionar o salto, vale comparar diretamente:

  • São Paulo → Lisboa: hoje, cerca de 10 horas de avião. Por foguete: ~35 minutos.
  • Nova York → Xangai: hoje, 15 a 20 horas de voo direto — um dos trechos comerciais mais longos do mundo. Por foguete: 39 minutos.[1]

Colocando de outro jeito: no tempo em que hoje você mal terminou de assistir a um filme e ajeitou o travesseiro no voo para Lisboa, na versão foguete você já teria desembarcado, pego as malas e estaria pedindo um pastel de nata. A viagem intercontinental deixaria de ser um evento de um dia inteiro para virar algo mais parecido com pegar um trem entre cidades vizinhas.[3]

Os primos mais próximos: os aviões hipersônicos

Enquanto o foguete ponto a ponto ainda amadurece, uma tecnologia “intermediária” avança mais perto do horizonte comercial: os aviões hipersônicos. Eles não são tão rápidos quanto a Starship — não saem da atmosfera — mas prometem cortar drasticamente os tempos de voo usando motores capazes de superar várias vezes a velocidade do som.[4]

  • Venus Aerospace: empresa que desenvolve um motor de detonação rotativa, mirando aeronaves capazes de voar em regime hipersônico e transformar viagens de muitas horas em poucas horas.
  • Hermeus: startup que trabalha em aeronaves hipersônicas com a ambição de reduzir travessias transatlânticas a uma fração do tempo atual.

Pense neles como o degrau intermediário: mais lentos que o foguete suborbital, porém provavelmente mais fáceis de aprovar, integrar aos aeroportos existentes e colocar em operação comercial. É plausível que um brasileiro voe primeiro num avião hipersônico do que num foguete ponto a ponto.[4]

Desafios e realismo: quando (e se) isso vai acontecer

Aqui é onde o sonho encontra a engenharia, a economia e o corpo humano. Antes de sonhar com o bilhete São Paulo–Lisboa em 35 minutos, há obstáculos consideráveis:

  • Custo. Lançar um foguete é caro. Para competir com a aviação, o preço por assento precisaria despencar a níveis de passagem premium — algo que só faz sentido com foguetes totalmente reutilizáveis, voando com altíssima frequência. Nos primeiros anos, seria um luxo para poucos.[3]
  • Força G e conforto. Um lançamento e uma reentrada de foguete submetem o corpo a forças de aceleração (força G) muito superiores às de um avião. Nem todo passageiro — idosos, pessoas com problemas cardíacos ou de coluna — toleraria isso sem preparo. A microgravidade no meio do voo é encantadora, mas soma um fator de enjoo e desconforto.
  • Ruído. O estrondo de um foguete é ordens de magnitude maior que o de um jato. Por isso os lançamentos precisariam ficar longe das áreas urbanas, em plataformas no mar, o que adiciona uma etapa de deslocamento à viagem.
  • Segurança. Voo espacial ainda é uma atividade de altíssimo risco comparada à aviação comercial, que é hoje o meio de transporte mais seguro do mundo. Para transportar passageiros comuns, a confiabilidade teria que subir a um patamar inédito para foguetes.
  • Regulação. Não existe ainda um arcabouço regulatório para vender passagens em foguetes suborbitais entre países. Rotas internacionais como São Paulo–Lisboa envolveriam acordos entre agências de aviação, autoridades espaciais e governos — um processo longo.
  • Quando? Por todos esses motivos, o Earth-to-Earth é hoje um conceito, uma etapa futura do programa Starship, e não um serviço comercial. A tecnologia de base está sendo testada, mas voos regulares com passageiros pagantes ainda estão a anos de distância. O mais provável é vê-lo primeiro em rotas de nicho ou missões específicas antes de virar rotina.[4]

Perguntas frequentes

1. Já é possível comprar uma passagem de São Paulo para Lisboa por foguete? Não. O Earth-to-Earth da SpaceX ainda é um conceito em desenvolvimento, ligado ao amadurecimento da Starship. Os 35 minutos são uma estimativa baseada na física da trajetória suborbital, não um serviço à venda. Por enquanto, o voo Atlântico continua sendo as suas ~10 horas habituais.[2]

2. Por que o foguete é tão mais rápido que o avião? Porque ele muda de estratégia. Em vez de empurrar o ar a 900 km/h dentro da atmosfera, o foguete sobe até a borda do espaço, onde quase não há resistência, viaja em velocidade hipersônica pelo vácuo e desce no destino. É a diferença entre nadar contra a correnteza e saltar por cima dela.[1]

3. Vou sentir os minutos de “flutuar” no espaço? Sim. Durante o trecho de voo com os motores desligados, os passageiros experimentariam alguns minutos de microgravidade, a mesma sensação dos astronautas. Some-se a isso a forte força G no lançamento e na reentrada — bem mais intensa que qualquer decolagem de avião. É uma experiência física exigente, não uma soneca tranquila.[3]

4. E os aviões hipersônicos? São a mesma coisa? Não, são os “primos” mais próximos e mais realistas no curto prazo. Empresas como Venus Aerospace e Hermeus desenvolvem aeronaves que voam a várias vezes a velocidade do som dentro da atmosfera. Não são tão rápidas quanto o foguete suborbital, mas tendem a ser mais fáceis de regular e operar — provavelmente chegarão antes ao mercado.[4]


O trajeto São Paulo–Lisboa em 35 minutos é, por ora, uma promessa apoiada em física real e engenharia ainda imatura. Os números da SpaceX são deslumbrantes, os desafios são igualmente enormes, e o futuro provavelmente chegará em etapas — primeiro os aviões hipersônicos, depois, talvez, o salto suborbital. Mas a direção da viagem está clara: um mundo em que atravessar o Atlântico deixa de ser uma noite perdida e passa a caber no intervalo do almoço.

Fontes

  1. HowStuffWorks — New York to Los Angeles in 12 Minutes
  2. SpaceX — Starship (Earth-to-Earth)
  3. Forbes — SpaceX Starship business travel (2026)
  4. NASASpaceflight — Starship point-to-point (2025)
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