Como medir amperes com um multímetro
Compilado e verificado a partir das fontes citadas, revisado pela nossa equipe editorial.
Medir corrente é a medição mais difícil e mais perigosa que se faz com um multímetro — e o motivo não é a medição em si, é a forma de ligar o aparelho.
Para medir tensão, o aparelho vai em paralelo; quase não se mexe no circuito. Para medir corrente é preciso abrir o circuito e inserir o multímetro no meio. Nesse modo, a resistência interna do aparelho é quase zero. Se deixar uma ponta de prova no borne de corrente e depois encostar numa tomada, você aplicou pura e simplesmente um curto-circuito à rede.
Aqui está o procedimento correto passo a passo e, além dele, o detalhe técnico que quase ninguém menciona: a tensão de carga (burden voltage). Quando um circuito para de funcionar exatamente no momento em que você começa a medir, essa costuma ser a causa — não um defeito.
Três verificações antes de começar
1. O fusível está bom? As entradas de corrente do multímetro são protegidas por fusível e, com o fusível queimado, o display fica sempre em «0» — e você conclui que o circuito está aberto. O teste é simples: ponha o aparelho em resistência (Ω), encoste uma ponta no borne de 10 A e a outra no de V/Ω. Um fusível bom lê poucos ohms ou menos; «OL» significa que queimou.
2. Escolheu o borne certo? O multímetro costuma ter três: COM (preto), VΩmA e 10A. Para tudo acima de uns 300-400 mA, a ponta vermelha vai no borne de 10 A. As duas entradas têm fusíveis separados e a de mA aguenta bem menos.
3. Que corrente você espera? Se não souber, comece pela escala mais alta e desça. Mesmo em aparelhos de escala automática, o borne é escolhido à mão: o aparelho não vai mudar sua ponta de lugar.
Não meça a corrente da rede (127 V ou 220 V) com as pontas de prova. Abrir o circuito e ligar o aparelho em série significa trabalhar energizado, com risco de choque e de arco elétrico. A ferramenta certa é o alicate amperímetro: ele abraça o condutor e nunca toca no circuito. Para a comparação completa, veja multímetro e voltímetro: diferenças.
Método 1 — Medir corrente contínua, passo a passo
É o procedimento para baterias, fontes, LEDs, circuitos automotivos e tudo o que funciona em contínua.
- Desligue a alimentação. Chave desligada, bateria desconectada, fonte removida. Nunca faça a ligação com o circuito energizado.
- Coloque as pontas. A preta em
COM; a vermelha em10Aou emmA, conforme a corrente esperada. - Escolha a escala: corrente contínua, marcada
A⎓oumA⎓. A linha reta indica contínua; a ondulada (~), alternada. - Abra o circuito e insira o aparelho. Solte um fio da linha de alimentação; o multímetro será a ponte entre essas duas extremidades. Ponta vermelha do lado da fonte, ponta preta do lado da carga.
- Energize e leia. O valor estabiliza em poucos segundos.
- Desligue, retire o aparelho e refaça a fiação.
- Volte a ponta vermelha para o borne V/Ω imediatamente. Transforme isso em reflexo: a maioria dos acidentes com multímetro começa por pular esse passo.
Método 2 — Medir corrente alternada
O procedimento é idêntico; basta selecionar A~. Na prática, porém, não use este método em circuitos da rede. Por três motivos:
- Abrir o circuito para inserir o aparelho obriga a trabalhar com condutores energizados.
- A maioria dos multímetros portáteis para em 10 A, e um circuito residencial supera isso com folga.
- Se houver curto, a energia do arco pode ultrapassar a categoria CAT do aparelho, e tanto o aparelho quanto você se dão mal.
A ferramenta correta é o alicate amperímetro. Ele lê a corrente pelo campo magnético em torno do condutor e nunca abre o circuito.
Borne de mA ou de 10 A?
Essa escolha define tanto a exatidão quanto a segurança da medição.
| Borne mA / µA | Borne 10 A | |
|---|---|---|
| Limite típico | até cerca de 400 mA | 10 A contínuos |
| Sobrecarga | fusível rápido de baixo valor | até 20 A, só 30 segundos |
| Resolução | muito alta (nível µA) | baixa |
| Tensão de carga | alta | baixa |
| Para quê | eletrônica, consumo parasita, sensores | motores, baterias, lâmpadas, fontes |
«20 A / 30 segundos» não é frase de marketing, é limite térmico. O shunt e o fusível aquecem nessa corrente; passando do tempo, primeiro vai o fusível e depois as trilhas. Mantenha curtas as medições de corrente alta.
Tensão de carga: por que o circuito para de funcionar
O multímetro não «sente» a corrente diretamente. Ele a faz passar por um resistor shunt interno, mede a queda de tensão sobre ele e converte em amperes pela lei de Ohm. Ou seja, o aparelho acrescenta resistência ao circuito e sobre ela surge uma queda de tensão. Isso é a tensão de carga (burden voltage).
Um exemplo mostra por que importa. Você quer medir 50 mA num circuito com microcontrolador alimentado em 3,3 V:
- Num bom aparelho (cerca de 1,8 mV/mA num Fluke 87V) a tensão de carga é 50 × 1,8 = 90 mV. O circuito ainda vê 3,21 V e continua funcionando.
- Num aparelho barato, a mesma corrente pode derrubar facilmente 0,5-1 V. A alimentação cai para uns 2,3 V e o microcontrolador reinicia. E você conclui: «quando eu meço, para de funcionar, então tem defeito».
Para a tensão de carga não contribui só o shunt: as pontas de prova, o fusível e os contatos da chave de escala também entram. Por isso, no mesmo aparelho, a escala de mA tem tensão de carga muito maior do que a de 10 A.
Conclusão prática: se um circuito sensível de baixa tensão se comporta de forma estranha enquanto você mede, coloque primeiro o seu instrumento na lista de suspeitos, não o circuito. Suba uma escala quando puder (10 A em vez de mA) ou calcule a corrente indiretamente medindo a tensão sobre um resistor de valor conhecido.
Método 3 — Medir com alicate amperímetro
É a única forma segura de medir sem abrir o circuito.
- Escolha a escala:
A~, ouA⎓nos modelos que também leem contínua. - Zere antes de medir em contínua. Com as garras fechadas e vazias, aperte
ZERO; em aparelhos com sensor Hall, pular esse passo faz a leitura derivar o tempo todo. - Abrace UM ÚNICO condutor. Se pegar fase e neutro juntos, as correntes se cancelam e o display fica perto de zero. Não é defeito, é física — a medição de corrente de fuga se baseia exatamente nesse princípio.
- Garanta que as garras fechem por completo. Qualquer folga derruba a leitura.
- Centralize o condutor nas garras se possível. Na borda, a leitura pode desviar alguns pontos percentuais.
Em correntes baixas — algumas centenas de miliamperes — a resolução do alicate não dá conta. O truque clássico de campo: dar dez voltas de fio dentro das garras e dividir a leitura por dez.
Aplicação: consumo parasita no carro
Se a bateria do carro amanhece descarregada, essa é a medição a fazer.
- Tranque o carro e espere 20-40 minutos até os módulos entrarem em repouso. Medindo cedo demais, você verá um valor muito acima do normal.
- Desconecte o terminal negativo da bateria.
- Ligue o multímetro em série entre o terminal e o polo da bateria, na entrada de 10 A, escala de corrente contínua.
- Leia o valor. Num carro moderno, espera-se algo em torno de 20-50 mA. Acima de 80-100 mA vale investigar.
- Se estiver alto, puxe os fusíveis um a um e observe em qual circuito a leitura cai.
Não abra a porta nem gire a chave durante a medição. O despertar do circuito de partida ou dos faróis puxa dezenas de amperes num instante e queima o fusível do aparelho na hora. Por isso muitos profissionais instalam antes uma chave de contorno no terminal.
Calcular a corrente sem medir
Às vezes não é preciso medir nada. A placa do aparelho já basta:
I = P / V
- Um chuveiro de 5500 W em 220 V puxa cerca de 25 A — por isso exige circuito e disjuntor próprios.
- Uma chaleira elétrica de 2000 W em 220 V puxa cerca de 9,1 A.
- Uma fonte de notebook de 60 W com saída de 19 V entrega cerca de 3,2 A.
O cálculo é bastante exato em cargas resistivas: aquecedores, lâmpadas incandescentes, ferros de passar. Em motores e eletrônica chaveada entram o fator de potência (cos φ) e a corrente de partida, e o valor real muda — por isso, em geladeira, ar-condicionado e ferramentas elétricas, medir é mais confiável do que calcular.
Se o fusível queimou
- Abra o aparelho — normalmente tampa traseira e dois a quatro parafusos.
- Ache o fusível certo: a entrada de mA e a de 10 A têm um cada.
- Substitua por um de mesmo valor e mesmo tipo. Em aparelhos profissionais isso significa fusível cerâmico HRC, não de vidro — o da Fluke de 11 A / 1000 V, por exemplo, tem 20 kA de capacidade de interrupção.
- Nunca troque por um de vidro. O aparelho continuará medindo, mas o nível de proteção cai; num curto, o corpo de vidro pode estourar e deixar o arco se manter.
A causa é quase sempre a mesma: medir tensão com as pontas ainda nos bornes de corrente.
Oito erros comuns
- Ligar o amperímetro em paralelo. É curto direto na fonte. Amperímetro vai sempre em série.
- Esquecer a ponta no borne de corrente. A próxima medição de tensão queima o fusível.
- Medir corrente alta pelo borne de mA. Uma entrada de 400 mA não segura um motor de 3 A.
- Tentar medir corrente da rede com as pontas. Use alicate amperímetro.
- Abraçar fase e neutro juntos com o alicate. A leitura sai perto de zero.
- Usar o alicate em contínua sem zerar. A leitura fica derivando.
- Ignorar a tensão de carga. Num circuito sensível, a própria medição atrapalha o funcionamento.
- Manter corrente alta por muito tempo no borne de 10 A. O limite de 30 segundos a 20 A é um limite térmico real.
Perguntas frequentes
Como medir amperes com um multímetro? Em série: desligue a alimentação, solte um fio e insira o multímetro como ponte entre as duas extremidades. Ponta vermelha no borne de mA ou de 10 A conforme a corrente esperada, escala de corrente contínua ou alternada, depois energize e leia.
O amperímetro liga-se em série ou em paralelo? Sempre em série. Como sua resistência interna é quase nula, um amperímetro em paralelo curto-circuita a fonte: queima o fusível e, no pior caso, gera arco.
Qual a diferença entre o borne de mA e o de 10 A? A entrada de mA/µA mede até uns 400 mA com resolução altíssima e é para correntes pequenas. A de 10 A conduz 10 A contínuos e 20 A por pouco tempo, mas resolve pouco. Acima de 300-400 mA, use sempre o borne de 10 A.
Dá para medir corrente em 220 V com multímetro? Com as pontas, não. Abrir o circuito para inserir o aparelho é trabalhar energizado, e o limite de 10 A de um portátil é ultrapassado com facilidade num circuito residencial. A ferramenta certa é o alicate amperímetro.
O que é tensão de carga (burden voltage)? O multímetro mede a corrente passando-a por um resistor shunt; a queda de tensão nesse resistor é a tensão de carga. Fica em torno de 1,8 mV/mA num bom aparelho e várias vezes mais nos baratos, o bastante para atrapalhar circuitos de baixa tensão.
O circuito parou enquanto eu media, por quê? Provavelmente a tensão de carga. O aparelho acrescenta resistência, a tensão de alimentação cai e o circuito reinicia. Subir uma escala (10 A em vez de mA) ou calcular a corrente indiretamente por um resistor conhecido resolve.
Por que o fusível do multímetro queima? Quase sempre porque se mediu tensão com as pontas ainda nos bornes de corrente. Nessa posição o aparelho se comporta como curto-circuito.
Como sei se o fusível queimou? Ponha o aparelho em resistência e encoste uma ponta no borne de 10 A e a outra em V/Ω. Poucos ohms ou menos: o fusível está bom. «OL»: queimou.
Como se troca o fusível do multímetro? Abra a tampa traseira e coloque um de valor e tipo idênticos. Use obrigatoriamente cerâmico HRC em vez de vidro; em aparelhos profissionais chegam a 20 kA de capacidade de interrupção.
Alicate amperímetro mede corrente contínua? Só os modelos com sensor Hall marcados «AC/DC». Alicates só de alternada não enxergam contínua de jeito nenhum. E antes de medir em contínua, zere sempre com as garras vazias.
Por que meu alicate marca zero? Muito provavelmente você abraçou fase e neutro juntos, e as duas correntes se cancelam. Pelas garras deve passar um único condutor.
Como meço uma corrente muito pequena com o alicate? Passe o fio dez vezes pelas garras e divida a leitura por dez. É o truque clássico que multiplica por dez a resolução em correntes baixas.
Quanto de consumo parasita é normal num carro? Cerca de 20-50 mA num veículo moderno, depois de os módulos entrarem em repouso. Acima de 80-100 mA vale investigar. Esperar 20-40 minutos antes de medir é indispensável.
Posso calcular a corrente em vez de medir? Em cargas resistivas, sim: I = P / V. Um chuveiro de 5500 W em 220 V puxa cerca de 25 A. Em motores e eletrônica, fator de potência e corrente de partida tornam a medição mais confiável.
Dá para medir corrente de fuga com o multímetro? Na prática não com um portátil; é preciso um alicate de fuga com resolução em miliamperes. O princípio é o mesmo: abraçar fase e neutro juntos e ler a diferença.
A escala automática ajuda ao medir amperes? Ela escolhe a escala, mas não o borne. Se a ponta estiver na entrada de mA e você tentar medir uma carga de 5 A, o automático não salva: o fusível queima.
Qual multímetro serve para medir corrente? Em casa, qualquer um com borne de 10 A e fusível decente resolve. Em serviços elétricos, True RMS e CAT III importam; para comparar modelos e preços, veja multímetro: modelos, tipos e preços.
Fontes
- Fluke — How to use a multimeter: medição de corrente e passos de segurança. https://www.fluke.com/en-us/learn/blog/maintenance-monitoring/how-to-use-a-multimeter-guide
- Fluke — Guide to digital multimeter safety. https://www.fluke.com/en/learn/blog/safety/multimeter-guide
- Página do produto Fluke 115 — entrada de 10 A, limite de sobrecarga 20 A / 30 s. https://www.fluke.com/en-us/product/electrical-testing/digital-multimeters/fluke-115
- Manual do Fluke 87V — valores de tensão de carga nas escalas de corrente. https://assets.fluke.com/manuals/87______umeng0800.pdf
- RS Components — fusível de multímetro Fluke 11 A / 1000 V, 20 kA de capacidade de interrupção. https://uk.rs-online.com/web/p/multimeter-fuses/3012416